“Parental Advisory” – o selo que “controlou” a música

Tudo começou no lar do então senador norte-americano Al Gore e a sua esposa Tipper. O casal estava a ouvir o disco Purple Rain, do Prince, e eis que chegam à canção Darling Nikki, que começa assim:

“I knew a girl named Nikki
I guess u could say she was a sex friend
I met her in a hotel lobby
Masturbating with a magazine”…

O quê? Masturbação? Um insulto, uma blasfémia!

Indignada com “o rumo que a música estava a tomar”, com letras demasiadamente ofensivas, Tipper movimentou-se e entrou em contacto com um grupo de amigas influentes, esposas de nomes poderosos da política na cidade de Washington.

Desta articulação, nascia a sigla que, durante muitos anos, significou o inferno para os músicos nos EUA: PMRC (Parents Music Resource Center – algo como “centro de recursos musicais para os pais”).

O objectivo seria orientar os pais e mães “de bem”, a lutar por um mercado musical mais digno, e limpo para a tradicional família americana. O PMRC, liderado por Tipper, tinha na sua “frente de guerra” figuras públicas como, Susan Baker, esposa do Secretário do Tesouro James Baker, e Sally Nevius, casada com o político do conselho municipal de Washington, John Nevius.

A sua primeira campanha foi contra os músicos que se tornaram parte de uma lista negra, criada por elas e baptizada com o nome “The Filthy Fifteen” (Os Quinze Imundos).

São quinze canções consideradas imorais e contra as quais elas pediam um constante boicote, por eram músicas que não estavam de acordo com os valores familiares. Eram músicas que falavam de temas como drogas, sexo, violência e ocultismo. As músicas eram as seguintes:

Darling Nikki (Prince)
Sugar Walls (Sheena Easton)
Eat Me Alive (Judas Priest)
Strap On ‘Robbie Baby (Vanity)
Bastard (Mötley Crüe)
Let Me Put My Love Into You (AC/DC)
We’re Not Gonna Take It (Twisted Sister)
Dress You Up (Madonna)
Animal (W.A.S.P.)
High ‘n’ Dry ( Def Leppard)
Into the Coven (Mercyful Fate)
Trashed (Black Sabbath)
In My House (Mary Jane Girls)
Possessed (Venom)
She Bop (Cyndi Lauper)

Só que elas não estavam satisfeitas. Não queriam parar aí, e estavam dispostas a muito mais.

Claro que sendo casadas com quem eram, elas sabiam muito bem do poder da Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que enuncia e protege a liberdade de expressão – inclusive destes artistas que o PMRC tanto combatia.

Mas… e se a música também fosse submetida a uma espécie de classificação?

Não demorou muito até que o grupo fizesse um acordo com a “Record Industry Association of America” (RIAA) para começar a colocar aqueles clássicos autocolantes, a preto e branco, com a frase “Parental Advisory”, indicando que aquele conteúdo não era apropriado para crianças. Tinham ainda com uma legenda específica para indicar o que poderia ser ouvido naquele disco (V = Violence, S = Sexual Content, O = Occult).

Aquele não era um selo obrigatório, era “voluntário”, mas era uma espécie de recomendação, que as editoras e produtoras passaram a seguir quase que cegamente – e seguem até hoje, aliás.

É difícil de acreditar, mas alguns artistas defendiam que o selo não era apenas uma piada, mas uma forma de mostrar ás crianças quais eram os discos mais aconselhados, na altura da sua aquisição.

Mas nem todos levaram a coisa na brincadeira e “na desportiva”, como é o caso de Dee Snider, na altura vocalista dos Twisted Sister.

“O que estes músicos não entendem é o uso que pode ser feito daquele selo. Não é algo feito para informar os pais, é uma forma de segregar a arte, e de impedir que ela chegue às lojas”, explica o cantor…

“Grande parte das lojas simplesmente se recusam a comprar álbuns que tenham aquele selo. E mais… isto abriu as portas para que grandes lojas como a Best Buy e a Wal-Mart pressionassem as produtoras, para fazerem versões editadas dos discos – como “Devil Without a Cause”, do Kid Rock, tendo sido retirada a música Fuck Off. E isso sem qualquer aviso ou consentimento do artista. E não nos podemos esquecer dos “bleeps e barulhinhos” para “abafar” os palavrões das músicas”.

Chegava então o grande momento, aquele que o PMRC tanto esperava, coordenado pelo marido da Sra. Tipper (Al Gore): a audição pública no Senado.

Não era um julgamento. Era apenas uma convocatória das partes envolvidas para que elas pudessem dar as suas opiniões, expor os seus pontos de vista, questionadas pelos senadores.Tudo isto tinha como objectivo a promoção de um possível projecto de lei.

Da parte dos músicos, três grandes nomes foram chamados para aquelas audiências, em Setembro de 1985. E eles não poderiam ser mais diferentes entre si: o cantor country John Denver; o inventivo, alucinado e experimental Frank Zappa; e o próprio Dee Snider.

Dos três, Snider foi sem dúvida alguma aquele que fez história. Foi na verdade, um espectáculo mediático, já que todos os canais de TV do país estavam interessados no que estava a acontecer ali.

A senadora Paula Hawkins chegou a apresentar as capas de três discos (Pyromania do Def Leppard, W.O.W. de Wendy O. Williams e W.A.S.P., que é…do W.A.S.P.), além dos temas de Hot for Teacher (Van Halen) e We’re Not Gonna Take It, do Twisted Sister.

“Muito mudou desde os tempos aparentemente inocentes de Elvis”, disse ela.

“O que era útil e sugerido deu lugar a expressões gráficas de actos sexuais violentos, consumo de drogas e até flirts com forças malignas”.

Só que a resposta viria rapidamente. De queixo erguido, Dee Snider que tinha entrado na sala de cabelo armado, maquilhagem nos olhos, camisa rasgada, jeans apertados, cinto de “tachas”.

“Quando eles me chamaram, eu estava nervoso, na verdade”, confessa ele.

“Eu nasci nos anos 50, e mesmo o Watergate tendo acontecido, ainda tinha aquela ilusão de que Washington era o mundo mágico de Oz, onde pessoas incríveis (políticos) estavam a fazer coisas incríveis, para o nosso bem-estar”.

As pessoas incríveis, todas engravatadas, não levaram Dee Snider a sério quando ele chegou. Deram algumas risadas, e acharam que estavam diante de um palhaço maquilhado… no entanto estavam enganados.

Com inteligência e forte argumentação, o músico foi debatendo tudo o que era dito, de forma calma e tranquila – mas tudo com uma pitada de humor, claro.

O fotógrafo Mark Weiss, que já tinha fotografado Dee para a capa do famoso disco Stay Hungry, foi chamado pelo amigo para testemunhar aquele momento.

“O testemunho dele foi articulado e apaixonado, conforme ele defendia o direito à liberdade de expressão artística dos seus colegas músicos”, conta.

“Lembro-me de sentir como se ele estivesse a falar por mim e pelos meus direitos de escolher a música que eu queria ouvir”.

Uma das primeiras coisas que Al Gore fez questão de dizer a Dee, é que não gostava dos Twisted Sister e das suas letras. E ainda afirmou publicamente que Under the Blade, tema do álbum de estreia da banda, era sobre sadomasoquismo, conforme Tipper havia-lhe contado.

Foi a deixa que Snider precisava, ao dizer que a esposa do nobre deputado tinha-se enganado em relação ao significado da canção.

“Fiz questão de esclarecer que a canção era uma homenagem ao meu guitarrista Eddie Ojeda, que teve que fazer uma cirurgia na garganta.”

Al Gore estava a morrer de medo, e Dee disse que ia escrever uma música para ele. E completou dizendo: “Não posso fazer nada se a Sra. Gore tem uma mente poluída“.

“Se Al Gore lançasse raios dos olhos, ele tinha-me explodido na minha cadeira”, diverte-se Snider.

“Ele estava furioso. Mas não podia dizer nada”.

Para Snider, no entanto, a coisa mais positiva que conseguiu, foi ter desmistificado a imagem de que todo o Rockeiro é um indivíduo demoníaco, um arruaceiro hedonista e irresponsável.

“Eu sou um bom cristão, não bebo ou uso drogas, sou casado e tenho uma família. A responsabilidade total sobre a educação e defesa dos meus filhos recai sobre meus ombros e sobre os da minha esposa, porque não existe qualquer pessoa que faça este julgamento melhor do que nós”.

Num primeiro momento, alguns fãs questionaram Dee acerca da sua imagem de “bom moço”, que não combinava com o personagem cénica que interpretava. No entanto, pouco tempo depois ele afirmou que sentiu um momento de alívio, quando passou a ser reconhecido de outra maneira.

“Foi a primeira vez que pude mostrar ás pessoas que eu não era uma aquela personagem. Eu tenho um cérebro…”

“Foi quando as pessoas começaram a pensar: ‘Dee não é apenas um rosto cheio de maquilhagem que grita músicas nojentas’ “.

“Criei uma longa e diversa carreira a partir daí”, afirma.

“Hoje, eu e minha esposa temos um casamento sólido. Nenhum dos meus filhos já foi preso por tráfico de drogas. Mas o de Al Gore foi. Estou me a gabar? Sim, estou. Eu não atirei pedras para o telhado de vidro deles. Eles atiraram para meu”.

Hoje em dia, o PMRC já não existe, mas entrou para a história da cultura Pop, e aquele episódio importante da história da música, ainda hoje é recordado.