DREAM THEATER – o que ouvimos em “Distance Over Time”

Nesta fase da carreira acredito que não há necessidade de perdermos tempo com uma introdução em relação à importância dos Dream Theater no mundo do metal.

Devemos somente destacar o facto de que eles são responsáveis por criar e divulgar da melhor forma o metal progressivo, e estão na vanguarda da música desde sua virtuosa estreia em 1989.

O décimo quarto álbum da banda, “Distance Over Time”, foi lançado pela promotora Inside Out, em fevereiro deste ano.

É raro para uma banda da importância dos Dream Theater ter qualquer coisa para provar ainda, no entanto Distance Over Time veio com a missão principal de tentar tranquilizar os seus fãs, e mostrar que a banda ainda consegue inovar no metal progressivo.

A dúvida veio depois do lançamento da ópera rock “ The Astonishing”, lançado em 2016, um álbum longo, com 34 músicas, que foi recebido de forma “morna” por alguns fãs que chegaram a chamar o álbum de cansativo, onde faltavam alguns elementos pesados e progressivos, pontos que sempre foram marcas registadas da banda.

Seja como for, os Dream Theater fizeram um esforço para misturar coisas novas neste lançamento, trazendo novamente peso aos acordes e requintes progressivos ás canções. Os fãs “mais ferrenhos” certamente vão dizer que esta “indefinição” no estilo da banda deve-se ainda ao efeito da saída de Mike Portnoy, e de certa forma não estão errados em afirmar tal facto.

Distance Over Time começa com “Untethered Angel”, que foi também o primeiro single do álbum. A canção é na verdade os Dream Theater na sua essência mostrando e que vêm fazendo há anos. Tem um riff pesado, um vocal alto com muitas variações, habituais solos de guitarra e de teclado. Colocar esta música na abertura do álbum foi uma escolha segura, uma música que certamente veio com a intenção de apaziguar um pouco a relação com os fãs.

“Paralyzed” é uma faixa coesa e bem escrita, um groove pesado que se mistura com algumas variações de bateria e tem um ótimo tom nos vocais de James LaBrie. Com apenas quatro minutos de duração, quase um marco para os Dream Theater, a composição é a mais envolvente e bem que podia ser o primeiro single deste álbum, embora tenha sido lançada apenas como a terceira música de trabalho.

“Fall into the Light” foi o segundo single deste álbum… gosto deste tema… Petrucci imprime um riff pesado de guitarra , e temos que destacar também o interlúdio na melodia no meio da música, e algumas mudanças de andamento bem interessantes.

“Barstool Warrior” tem uma introdução abertamente progressiva que me agrada, senti aqui um toque muito forte de Emerson Lake & Palmer. Fez-me lembrar também alguns momentos do álbum “Falling in Infinity” de 1997. Vocais limpos e uma guitarra lírica, tendo a certeza que agradou aos fãs, tal como me agradou.

“Room 137” é em sua maior parte escura e sombria. Apresenta um groove raríssimo no catálogo dos Dream Theater. Soa como o heavy metal contemporâneo e aproveita alguns tons sinistros e ritmos cativantes. Os teclados serpenteiam pelo tema fora, criando um trabalho intrigante. Solos de jazz habilidosos seguem em paralelo às explosões de poderosos riffs.

Em “S2N”, John Myung dá a sua precisão e técnica no riff de abertura. Já fazia algum tempo que o seu baixo não assentava tão bem na mistura e produção. Interessante neste tema é também John Petrucci que chega a contribuir com a sua voz a determinada altura.

“At Wits End” abre com uma atmosfera tensa, riffs baixos, música muito bem composta, e com vocais suaves de LaBrie durante 9 minutos.

O ritmo diminui e flui entre múltiplas emoções. Pode dar algum trabalho e levar algum tempo para que os ouvidos possam digerir completamente esta teia elaborada, mas esta canção mostra o que os Dream Theater têm de melhor. Completamente sem medo de “saltar” para os domínios da experimentação.

“Out Of Reach” parece ser uma máquina perfeitamente cronometrada, depois da complexidade que acaba por se desdobrar com os segmentos calmantes do piano e os tons suaves dos vocais de Labrie.

Para acalmar os ouvidos, este tema resume perfeitamente o quão fácil os Dream Theater conseguem entrelaçar-se entre tons pesados e melodias serenas.

A última faixa do álbum, “Pale Blue Dot”, começa com uma abertura dramática antes de uma bateria bastante vincada. Os riffs barulhentos acompanham alguns sintetizadores em tom de “suspense”. É sem dúvida um tema com a cara dos Dream Theater, e tem uma secção instrumental longa e muito bem composta, semelhante a alguns temas clássicos como “Metropolis”, “Octavarium” e a”A Change of Seasons”.

No geral, em Distance Over Time, a banda volta a fazer o que no passado a tornou a pioneira do metal progressivo e com muita qualidade. A ironia é que a maioria dos fãs ainda “ressacam” a saída de Mike Portnoy e lamentam esse facto, dando ao álbum o rótulo de “apenas mais um disco do Dream Theater”.

É facto que os primeiros discos dos Dream Theater foram excepcionais e bastante variados do ponto de vista musical, e de lá para cá houveram muitas variações na banda.

Mas temos que admitir que nos últimos lançamentos da banda tivemos um bom emparelhamento de John Petrucci e Jordan Rudess, e com isso a banda encontrou um estilo de composição confortável, mantendo os Dream Theater nos holofotes do cenário do rock mundial.

Se julgarmos o álbum como sendo a imagem da sua própria identidade e nada mais, é fantástico. No entanto, os Dream Theater é um nome familiar no mundo do rock e do metal, querendo acreditar que toda a sua carreira deve ser levada em consideração ao julgar um novo álbum.

Como referido anteriormente, nunca houve um mau álbum dos Dream Theater, e Distance Over Time prova as minhas palavras.