METALLICA e a sua vontade de “não desistir” – Crónica de Ana Costa

No dia 1 de Maio o Estádio do Restelo em Lisboa foi palco do primeiro concerto da segunda rodada da Worldwired Tour dos Metallica, primeira realizada no Altice Arena há pouco mais de um ano.

Para partilhar palco, os Metallica escolheram os noruegueses Bokassa e os suecos Ghost.  Uma noite inesquecível, com alguns percalços mas que ficará certamente na memória das 42 mil pessoas que no dia do trabalhador se deslocaram até Lisboa.

Crónica de uma Metaleira…

Eram 10h00, hora de saída do Porto, da excursão que me levava para um dos mais comentados e aguardados concertos de 2019. Ao contrário de algumas das excursões que tive a oportunidade de ir, esta, além do aumento significativo da quantidade de autocarros que saíram rumo à capital, destaco a variedade de pessoas com os mais variadíssimos “estilos” e idades que neste dia encarnaram o espírito metaleiro, talvez adormecido o resto do ano.

Metallica, digam bem ou mal, é das poucas bandas de metal que consegue o feito de encher um estádio em Portugal. Com quase 40 anos de carreira estes dinossauros do metal conseguem ainda mover multidões.

A viagem começou calma e sem percalços, ao invés do metal e o tilintar das garrafas de super bock, como som de fundo ouvia-se os mais recentes hits da RFM. As pessoas aproveitaram a viagem para carregar baterias para o dia longo que as esperava.

Com apenas uma paragem em Leiria, vários autocarros, certamente de vários pontos do país, encontravam-se cercados de pessoas a disfrutar do seu almoço.

Deu-me para ter uma ideia da multidão que se deslocava para ver a banda que ouço desde que me lembro ter bom gosto musical.

Quando chegamos ao local do evento, em plena capital, as t-shirts pretas e as Doc Martins misturavam-se com as capelines e as sandálias dos turistas que passeavam à beira rio. Ruas movimentadas, com muito trânsito de carros e pessoas. Muitos eram os que enchiam bares locais para convívio e aquecimento antes de entrarem no recinto.

As portas abriram um pouco antes das 17h (hora programada para abertura de portas), as filas circulavam rapidamente.

Quando entro no relvado do Estádio do Restelo deparo-me com uma monstruosidade de uma construção em ferro que seria palco de uma noite memorável. “Uma verdadeira besta” com vários ecrãs, que contrastava com o céu azul.

Os primeiros a abrir a noite foram os Bokassa, “uma mistura castiça” de punk, stoner rock e hardcore angular, em que os 30 minutos que tocaram souberam a pouco. A banda tocou os seus hits e até um tema novo, mas talvez por não serem, por enquanto, um nome muito conhecido pelos portugueses não tiveram uma reacção muito calorosa. O som abafado pela ventania que se fazia sentir no recinto e a curta actuação da banda não ajudaram os noruegueses a sobressair. Mas por serem, supostamente, uma banda favorita do Lars Ulrich, justificou a presença deste trio na digressão.

Seguiram-se os Ghost, nome já bem conhecido por terras lusitanas. Tobias Forge entra em palco no papel de Cardinal Copia. Com o seu humor e elegância encantou os espectadores que cantavam com ele os hits.

Sabendo que os Ghost nos habituaram a grandes espectáculos visuais, neste estavam apenas em palco com uma pequena estrutura metálica, algumas colunas de luz e apenas uma pequena aparição do Papa Emeritus para um solo de saxofone.

Não pude ignorar o facto de esta ter sido a actuação mais pobre, em termos visuais, que alguma vez vi desta banda.

Mas o reportório musical dos suecos que mistura de forma curiosa e inovadora o heavy metal, death, doom e shock rock, manteve os fãs e espectadores entretidos e curiosos durante toda actuação.

O sol já tinha desaparecido por completo, eu batia o dente, quer de frio quer de ansiedade pelos grandes da noite. Tentava arranjar um lugar no relvado em que conseguisse melhor vista para o palco mas sem sucesso.

Só os espectadores que compraram bilhete para o Golden circle e para as bancadas laterais tinham melhor visão para o palco, que apesar da estrutura monstruosa, estava demasiado baixa. 

Às 21h55 as luzes apagaram-se e o momento mais aguardado da noite aconteceu. Dava-se início ao tão esperado concerto dos Metallica, e nos gigantes ecrãs passavam imagens do filme do ano 1966 “The Good, The Bad And The Ugly”

Seguiram-se clássicos da banda, em que a multidão vibrava e cantava juntamente com o quarteto. Pelo meio deste espectáculo visual soberbo, ainda com algumas falhas técnicas, alguns dos temas mais recentes foram apresentados ao público, que acolheu não com tanta euforia, mas sempre a bater o pezinho e a abanar a cabeça e sem tirar os olhos do palco.

Destaco a homenagem a bandas locais, desta vez Rob prestou tributo a João Ribas. Ele juntamente com Kirk tocaram a primeira estrofe dos “Censurados”, como a maioria do público não conseguia acompanhar a letra da música, Rob voltou a cantar o refrão da “minha Casinha” dos Xutos, como em 2018 no Altice Arena.

Claro que os Metallica perderam alguma da energia de outros tempos. Além da idade também supostamente havia substâncias que os ajudavam a ter “mais pica” que hoje em dia. Notou-se especialmente quando James tentava, nem sempre de forma bem conseguida, chegar ao registo de voz mais aguda de outros tempos.

Também Lars não estava nas suas melhores noites, atrasando de forma notória algumas vezes o compasso das músicas.

Apesar disso sem dúvida que foi um espectáculo arrebatador, dos melhores a nível visual que tive oportunidade de assistir, com alguns percalços como é normal num início de uma tour, mas com um espírito e uma nostalgia de músicas intemporais que fazem parte da vida de muitos da minha geração.

Afinal Metallica é Metallica caragooo!