|REPORTAGEM|MOITA METAL FEST um festival onde se respira qualidade!

Com a chegada da primavera, chega também um dos melhores festivais nacionais que preza o bom ambiente e excelente música. Na 16ª edição do Moita Metal Fest, vários foram os nomes, de peso, que pisaram os palcos no decorrer dos dois dias: Enforcer, Destruction, Dr. Living Dead, Extreme Noise Terror, Decapitated.

Como já é habitual, há um grande número de bandas nacionais a tocar ao longo do festival: Irae, Grog, Gwydion, Gaerea, Simbiose, Holocausto Canibal, entre tantas outras, provando mais uma vez, que o Moita preza o que se faz em terras lusas. No total, foram 19 bandas que subiram ao palco e a análise de cada uma, como do festival em si, pode ser vista em baixo..

DIA 1

O primeiro dia foi composto por 6 bandas, com a abertura de portas a iniciar-se pouco depois das 18h, foi só às 19:30 que os Revenge of The Fallen, oriundos de Cascais, começaram a tocar as primeiras malhas para os presentes. Portadores de um metal alternativo, e com um álbum, “Pareidolia”, lançado no ano que passou, fizeram as honras o melhor que conseguiram. Uma das maiores surpresas do Moita, pelo menos para a Guitarscream, foram os Dream Pawn Shop. Com um som totalmente refrescante e único, muito devido à inclusão de um instrumento invulgar, o saxofone, tudo se tornou mais interessante, e bizarro. Juntando a isto, um enorme profissionalismo e um excelente álbum, “Carry Your Sins”, com músicas que têm tanto de original como de bom, fez com que fosse um dos melhores concertos do festival. Apesar de serem desconhecidos, tudo têm para se dar a conhecer. (


Dream Pawn Shop no MMF2019

Os próximos a entrar seriam os Irae. Através do black metal irreverente, cru e rápido que os caracteriza, que faz lembrar grandes monstros deste género, deram um concerto de pé no acelerador. Em contraste ao que se via no público, que esteve algo estático no decorrer do concerto. Contudo, se a malta estava mais envergonhada, essa vergonha desapareceu com a chegada dos Grog. Foi com eles que se começou a ver os primeiros passos de dança do público, com isto, queremos dizer, claro está, o primeiro verdadeiro mosh pit. Com a experiência que os Grog têm em palco, aliado à excelente qualidade de som, deram um dos seus melhores concertos de que temos memória. Uma atuação totalmente energética e de extrema brutalidade, fez com que mesmo os mais parados, se mexessem.

GROG no MMF2019

Se a qualidade de som era fator predominante nas várias atuações até então, tal não aconteceu no início de Enforcer. Alguns problemas a níveis técnicos fizeram com que os suecos não arrancassem na total velocidade a que são conhecidos. Apesar deste pequeno problema, que durou cerca de duas músicas da banda, tudo voltou ao normal, ou seja, à sublimidade, e a energia voltou a subir para níveis elevados. Performance marcada por uma total rendição do público aos 4 elementos que se encontravam no palco. Rendição esta, totalmente justificada. A cereja no topo do bolo foi o magnífico coro da plateia, com a ajuda de Jonas Wikstrand na bateria, a cantar o refrão de “Take me out of this nightmare”. Memorável. Mas se este momento foi memorável, o concerto de Destruction foi inesquecível. Os alemães, considerados um dos quatro grandes do thrash dessa região, juntamente com Tankard, Sodom e Kreator (onde os primeiros dois já tiveram o prazer de vir ao Moita), têm um legado enorme. Mas sempre ouvimos dizer que, se queremos conhecer realmente uma banda, temos de a ver em cima de um palco. Ora não os podíamos ter conhecido melhor. Sem preliminares, os Destruction deram e deixaram tudo em cima do palco. Com clássicos como “Nailed To The Cross”, “Mad Butcher”, “Total Desaster”, o público não parava quieto, então na zona frontal, era um caos total. Ainda tivemos direito a dois solos de bateria de autoria de Vaaver, e um solo de guitarra por Mike Silfringer. Foi um concerto espetacular, onde houve uma total entrega por todas as partes envolvidas. A malta quer é disto.


DESTRUCTION no MMF2019

A última banda a subir ao palco no primeiro dia foram os Gwydion. Tinham o árduo trabalho de fazer mexer o que restou do brutal concerto de Destruction, mas não fossem eles os Gwydion para meterem a malta toda a saltar com o seu folk e boa disposição. De cerveja na mão e felicidade no espírito, tocaram músicas do novo álbum, “Thirteen”, mas também as já clássicas “Mead of Poetry” e “From Hel to Asgard”. Não podia ter acabado de melhor maneira, uma performance brilhante e um ambiente de diversão e camaradagem, que reflete na totalidade aquilo que foi o primeiro dia.

DIA 2

O segundo dia começou bem cedo, e esperavam-nos 13 bandas, quase 12 horas de concertos, e não podíamos estar mais ansiosos. A primeira banda do dia, que subiu ao palco por volta das 14:30, foram os Moonshade.

É sempre difícil abrir um dia de um festival, ainda por cima a estas horas, onde o público ainda é escasso. Promoveram o seu último trabalho “Sun Dethroned” num concerto com espaço para melhorias.

De seguida, vieram os Mindtaker. Com um som que nos faz lembrar Municipal Waste, Havok e tantas outras bandas de thrash metal norte americanas. Criaram um ambiente festivo para os poucos presentes. Continuando na onda do thrash, mas mais virado para o death, temos os Infraktor. Se a banda anterior perdeu bastante tempo a comunicar com o público, esta foi o contrário. Mais música, menos palavras. Apenas com um disco na bagagem, “Exhaust”, tocaram energeticamente os temas e com uma força e brutalidade que raramente se vê. 

INFRAKTOR no MMF2019

Se há banda que necessita de uma qualidade de som exímia para que realmente se perceba o quão boa e coesa é, são os The Voynich Code. Felizmente, tal característica já é habitual no Moita. Com uma sonoridade peculiar, e ritmos e melodias ortodoxas, deram um grande concerto em terras lusas, depois de uma tour nipónica. Ainda tivemos direito a um single novo, “Cage of the innocents”. Os Diabolical Mental State voltaram com o thrash para o palco. Apesarem de terem mudado recentemente de vocalista e de guitarrista, vieram com tudo, e mal se notou a diferença. Uma performance de louvar, com direito a partilha de microfone com o público. Os primeiros mosh pits e crowdsurfs começaram a surgir. Mas se a malta já estava a começar a aquecer, rapidamente arrefeceram com a chegada dos Artigo 21. Apesar de terem sido profissionais ao que diz respeito à postura em palco, o público não foi na cantiga deles. Mas se sentia uma estranheza no ar, esse sentimento caiu no abismo profundo do black metal dos Gaerea. Um dos grandes momentos do festival, com uma performance totalmente teatral e cativadora. Cada tema entrelaçava-se na perfeição com o seguinte, fazendo com que o concerto se tornasse numa música só, deixando os ouvintes num estado de admiração e contemplação. Do melhor que se faz em território nacional. 

GAEREA no MMF2019

Os próximos seriam os Simbiose com o seu crust punk nacional, irreverente e pesado. Dotados de um som rápido e sem medidas, fizeram com que o público se mexesse devido à energia que transmitiam. Melhor elogio que o próprio Dean Jones, vocalista dos Extreme Noise Terror, estar na frontline a curtir é complicado. Para o jantar tínhamos um Holocausto Canibal. Conhecidos pela sua sonoridade extrema e brutal, fizeram um concerto digno deles. Com uma setlist recheada de temas do próximo disco da banda, os presentes puderam ter uma live preview do que está para vir. E acreditem, é muito bom.

Se a malta queria queimar as calorias do jantar, nada melhor do que saltar e correr ao som dos Dr. Living Dead. Foi com eles que vimos realmente a malta a mexer-se na zona central do recinto, e como não. Os suecos tocaram vários clássicos como “Crush the Sublime Gods” ou “TEAMxDEADx”, o que traduzindo, significa, muita energia e euforia. Passaram a sua boa disposição para os presentes. Grande concerto. Continuando por terras suecas, e no punk, foi a vez dos No Fun At All, um dos nomes mais esperados da noite e do festival. Com a casa cheia para os ver, não desiludiram nem por um segundo. Uma noite memorável recheada de grandes malhas, “Beat ‘em down” ou “Master Celebrator” fizeram com que o público não parasse. A felicidade era sentida por ambas as partes. 

Se até então tínhamos sido presenteados com um som espetacular aliados a um grande ambiente, isso acabou com a chegada dos Extreme Noise Terror. O início do concerto foi bastante atribulado, com ambos os vocalistas a mostrarem grande descontentamento com a qualidade de som que lhes tinha sido proporcionada até então. Isso fez com que o público ficasse na dúvida sobre como reagir. Resultado? Um ambiente estranho, e parado, durante os minutos iniciais. Contudo, lá tudo se resolveu, e a pouco e pouco, a malta foi acordando do estado sonâmbulo que se encontravam. A meio do concerto já tudo estava na normalidade. Este concerto também foi marcado por um acontecimento caricato com a invasão de um fã em palco, fã esse que saltou ao colo do Ben McCrow (um dos dois vocalistas). O próprio Ben disse na brincadeira, “It’s been a long time since I fucked a guy on stage”. Mesmo assim, os Extreme Noise Terror tiveram uma performance de louvar e recheada de clássicos de todas as eras da banda. Já era quase 1h da manhã quando a mais aguardada banda chegou. Os Decapitated chegaram e rebentaram com tudo e todos. Se ficámos extremamente infelizes por terem sido cancelados na edição do ano anterior, por motivos alheios à organização, não podíamos ter ficado mais felizes de termos testemunhado o concerto que deram nesta. Performance totalmente exímia em todos os aspetos: som, qualidade, presença, ambiente. Se há banda que merece a reputação que têm, são os Decapitated. Do melhor que há para ver ao vivo.

Assim termina mais uma edição do Moita, e como já é costume, foi excelente. Festival marcado pela diversidade musical e pela grande aposta em bandas nacionais, e que continuem, pois, há aí muita banda lusa pronta para dar cartas. A acrescentar a isto temos o bom ambiente e a grande qualidade técnica de som, sem esquecer a acessibilidade em termos de custos, tanto do bilhete como dos “comes e bebes” dentro do recinto. Uma diferença que notámos nesta edição, foi a existência de um pit entre o palco e a plateia, contudo a inexistência de seguranças nessa zona, foi algo que nos preocupou, felizmente ninguém se aleijou. Com isto, só nos resta esperar pela próxima edição, sob a qual temos uma única certeza, tal como esta, vai ser a melhor de sempre.

Agradecemos desde já à organização do Moita Metal Fest, em especial o Hugo, pela acreditação da nossa equipa.