GS entrevista LUÍS PARRACHO

Na semana em que completa 41 anos de idade, os restantes elementos da GuitarScream (GS) não podiam deixar de entrevistar, Luís Parracho (LP). Para além de ser o principal fundador deste projecto, GuitarScream, é também um talento nacional na execução da guitarra. Nasceu em Aveiro no dia 4 de Agosto de 1976, vive em Águeda mas o seu coração continua na vila de Vagos, terra que o viu a crescer durante muitos longos anos. É licenciado em Engenharia Biofísica pela Universidade de Évora.

GS: Quem é o Luís? Apresenta-nos um pouco do Luís.

LP: O meu nome é Luís Parracho, mais conhecido por “Parrachito”, e nasci em Vagos. A vila mais metaleira de Portugal.

GS: Conta-nos a tua história relativamente ao teu interesse pela guitarra.

LP: A minha história é relativamente simples. Tudo começa, porque na tradição de família, da parte materna, Todos os tios tocavam guitarra, baixo e guitarra Portuguesa. Nasci a ouvir os tios a tocarem guitarra, nos convívios de família. Era natural o gosto que fui adquirindo pela Guitarra. E em criança, como era gordo…muito gordo mesmo, e não conseguia correr atrás das bolas, quando havia jogos de futebol, optei pela guitarra, pois só tinha de dar aos dedos….(risos).

 GS: Com que idade compraste a tua primeira guitarra? Qual a marca? Ainda a tens?

LP: A primeira guitarra de todas, foi uma guitarra que um tio me deu, partida no braço, e que o meu avô paterno fez questão de me colar a mesma. Em Vagos, não havia um único sitio para comprar cordas para a guitarra acústica, e foi um estabelecimento de eletrodomésticos que me arranjou uma cordas, pois o proprietário tocava baixo, a acompanhar o grande Guitarrista de fado, Vaguense, e amigo, Armindo Fernandes. Comecei a juntar entretanto uns tostões, e fui ao Porto comprar a minha primeira acústica da Yahama, que em 1991 custou-me 70 contos… gastei tudo o que tinha juntado, e ainda tive uma ajuda extra de um tio, que me deu 20 contos… ia levando uma coça da minha mãe quando cheguei a casa (gargalhada)

GS: Há uma premissa entre músicos que diz: “Guitarristas atraem mais mulheres que o resto dos membros da banda.”…(ahahahah)…Concordas com esta afirmação? Foi por causa desta afirmação que escolheste a guitarra como instrumento musical de eleição?…(ahahahah)…

LP: Eu escolhi a guitarra, porque era aquele fascínio dos palcos. Não queria saber das namoradas,… eu queria era tocar rápido, fazer altos solos, usar cabelo comprido, e ser um metaleiro. Achava na altura que as namoradas só iriam atrasar o meu percurso (risos)…mas concordo com a afirmação…apesar de feio e gordo, sempre tive algumas admiradoras (risos)… talvez seja do balançar da anca, e do braço, aquando das guitarradas.

GS: Consideras-te um autodidata, ou tiveste aulas em alguma escola ou com alguém particular?

LP: Comecei como autodidata. Passava muitas horas a treinar escalas, que ia aprendendo em revistas que comprava. Depois um dia, o meu pai decidiu apostar na minha formação e meteu-me num professor particular, que lecionava no Conservatório de Aveiro, e entrei no mundo da Guitarra Flamenca…estava fascinado com a técnica, e ainda hoje sou fascinado pela técnica. O professor Ragner Tovar era muito exigente. Não podia ouvir um único trastejo na guitarra… era muito rigoroso na qualidade do som… aprendi muito com ele.

GS: Diria que muitos guitarristas ou mesmo todos eles, têm uma especial adoração pelos instrumentos de cordas. Para além da guitarra que outro instrumento (s) costumas tocar?

LP: Toco baixo e guitarra portuguesa… e tenho a mania que toco bateria, porque se repararem, todos os guitarristas, quando estão a ensaiar, gostam de se sentar no sitio do baterista, e começar a fazer barulho…no fundo, todo o guitarrista gostava de ser baterista (gargalhada…)

GS: Quem são os teus ídolos no mundo da guitarra? Para ti quem foi ou quem é o melhor guitarrista de todos os tempos? Um dos melhores a nível internacional e nacional também.

LP: Não quero ter a opinião repetitiva de maior parte dos guitarristas, mas Hendrix é o grande responsável pela sonoridade da guitarra…fui influenciado por Hendrix, Paco de Lucia, Al di Meola, John Mclaughlin, Stevie Ray Vaughan e Vicente Amigo…o melhor? São todos, pois cada um é bom naquilo que faz. Sempre fui contra ao facto de se afirmar que o melhor é este ou aquele. No entanto em homenagem ao mundo da guitarra, tatuei Hendrix num dos meus braços (risos).

Nacionalmente gosto de Joel Xavier, Paulo Barros, e Gonçalo Pereira…acho que são muito bons…claro está que tenho ficado surpreendido com muitos guitarristas de algumas bandas nacionais, que apresentam uma técnica incrível. Felizmente somos um País rico em músicos e executantes de excelência.

GS: E tu? Consideras-te um executante de excelência?

LP: Considero-me mais guitarrista e menos músico (risos).

GS: Com que outro guitarrista gostarias partilhar o palco? Porquê?

LP: Na atualidade, não gostava de partilhar palco com ninguém em especial. A questão de partilhar palco não servirá nunca para mostrar quem é o melhor. Gostava sim de partilhar conhecimentos, em privado com guitarristas como Satriani, Steve Vai, Eric Johnson, entre outros, que penso dominarem determinadas técnicas que me seduzem.

Em cima do palco, gostava apenas de estar com Iron Maiden, que foi uma banda que marcou a minha entrada, na década de 90, no mundo do metal. Foi mesmo a minha primeira cassette que comprei (Iron Maiden – no prayer for the dying, em 1990)… custou-me 700 escudos, e uma vassourada da minha mãe, pois tinha-lhe roubado umas moedas… (gargalhada…)

GS: Quais os projectos musicais em que estiveste ou ainda estás envolvido?

LP: Tirando o facto de que com 17 anos já tocava numa banda de baile chamada Sex Machine, e que é uma parte da minha vida que não quero falar (risos)…apenas refiro que a música de baile que tocava, era toda em distorção, e com bons solos de guitarra…(gargalhada), estive envolvido em muitas bandas de bar, alguns concursos de banda (os ABCINCO) onde fizemos alguns bons originais, e recordo com alguma saudade de um projeto, que designámos na altura por Projeto X, que se baseava num coro de 30 vozes, onde eram tocadas várias músicas de vários artistas internacionais, tais como Queen, entre outros. Era tudo cantado a 4 vozes…fizemos vários espetáculos e foi sempre casa cheia…era algo que me preencheu como músico. Nesse projeto entravam vários músicos que agora pertencem a bandas como Miguel Araujo, Abrunhosa e Comité Caviar, Expensive Soul, etc… Em termos de Metal…nunca encontrei localmente um baterista, e vocalista que me entusiasmassem  (risos).

GS: Falando agora na questão técnica, explica-nos o teu RIG em cima do palco. Quantas guitarras tens? Descreve cada uma delas quanto à marca e performance. Qual a tua favorita e porquê? Que outros componentes tecnológicos utilizas? (amplificadores, pedais, etc)

LP: Eh pah, agora estamos a falar na componente que leva qualquer guitarrista à falência… Atualmente, e porque já não estou no ativo em relação a palcos, embora continue a receber convites, uso em casa e para gravações em trabalhos caseiros, uma guitarra Fender ShowMaster (com pickups Seymour Duncan) e transformei a minha primeira guitarra elétrica Ibanez Ex, numa guitarra fretless. Depois as restantes guitarras são pouco usadas. Estão na coleção que eu um dia quero deixar a minha filhota…para ela pendurar na parede… Uso a pedaleira da Line 6 X3 Live, com uns bons sons que fui criando, e ligo diretamente a uma mesa de som da behringer, que me satisfaz perfeitamente…Tenho colunas e amplificadores da Line 6, mas basicamente nem tocam. Viver em apartamento tem estes problemas nos guitarristas…passamos apenas a investir nos bons auscultadores (risos). De resto, para mim, o material não precisa de ser muito. Precisa é de ir ao encontro da sonoridade que pretendemos.

 GS: Tens ideia quanto é que já investiste em material? Ainda vais investir mais em material?

LP: Não quero falar nisto porque a minha mulher vai ler a entrevista (hahahahahahaha)…mas já foi muito. Posso dizer que comprei o pedal TalkBox do Peter Frampton para usar uma única vez…e que está guardado religiosamente numa mala. (risos) Comprei o pedal para tocar Bon Jovi, e tocar improvisar Gary Moore com esse pedal… (risos). Um dia apeteceu-me juntar dinheiro, para colocar a minha guitarra a soar a piano e a flauta, e comprei o modulo midi da Terratec… que vendi passado 6 meses… só nestas 2 brincadeiras, desapareceram 1000 euros…queres que continue, ou ficamos por aqui?? (risos)

GS: No futuro quais são os teus objectivos como guitarrista? Tens músicas da tua autoria? Onde podemos escutá-las?

LP: Vou fazer uma confidência… os meus objetivos passam por mostrar à minha filha de 21 meses que a guitarra é um instrumento de eleição, e de alguma maneira influência-la a tocar este magnifico instrumento. Não me importo o estilo de música que ela venha a gostar…importo-me sim se ela um dia não souber apreciar aquilo que a música nos trás em termos de sentimentos e emoções.  E tenho musicas da minha autoria, mas essas deixo para os amigos que frequentam a minha casa…tirando o facto de já haverem gravações espalhadas no Youtube…(hahahahahahah)

GS: O que ouves em casa, no carro? Que estilo musical caracteriza a pessoa Luís Parracho?

LP: Ouço muitas bandas nacionais, quer no carro, quer em casa. Procuro conhecer um pouco da sonoridade das bandas nacionais. Há boas, há más, há muito boas, e há aquelas que deviam ser proibidas por lei (risos). Claro está que o som que ouço em casa é metal… O som que me vai normalmente na alma, e que eu faço questão de colocar a tocar, quando a alma chama por mim, é Machine Head, Kreator, Arch Enemy, Soulfly, Sepultura, Slayer,… à noite antes de me deitar, vou até ao meu escritório, sento a minha filhota ao meu colo, e ouvimos até à exaustão “Running to the hills” dos Iron Maiden…ambos cantamos no Inglês que só um pai entende…(gargalhada)

O tema que marca a minha vida, e sim tenho um tema que me identifico, e que será aquele que quero que toque quando morrer (risos), é “Little Wing” de Jimi Hendrix.

GS: Uma opinião da actual música rock / metal nacional.

LP: Neste momento, Portugal está fortíssimo, quer em termos de bandas, quer em termos de festivais de metal/rock. As bandas nacionais apresentam uma qualidade altissima, e os festivais estão no ranking dos melhores da europa. Fico feliz por esta comunidade estar a crescer em Portugal. Só me resta lamentar o enorme esforço que todos estes músicos fazem a troco de 50 euros, e uma bifana, percorrendo muitas vezes centenas de quilómetros, para poderem mostrar a sua música. Neste aspecto, e em Portugal, ainda não existe a mentalidade, de que se tem de pagar para termos acesso à cultura. Entretanto, o Português comum, não se importa de ir até alguns festivais mais mediáticos, porque é apenas moda…e somente moda, pois veja-se algumas entrevistas na TV a algum público, e maior parte nem ouve sequer música.

GS: As grandes editoras da música metal, como a Century Media Records, Napalm Records, Roadrunner Records, etc, conseguem lançar bandas de topo de toda a parte do mundo. No entanto vemos que as bandas portuguesas ainda não atingiram esse patamar. Temos excelentes bandas de metal em Portugal, na tua opinião a que se deve a não presença de bandas nacionais nessas grandes editoras? O que se poderia fazer para que as bandas nacionais pudessem atingir esse nível internacional?

LP: Tudo se baseia em dinheiro…nada mais…dinheiro, conhecimentos, e apadrinhamento…a parte da qualidade não falta às bandas portuguesas, mas é como afirmei na resposta anterior…a ganharem 50 euros e por vezes a tocarem gratuitamente, não se valoriza aquilo que se faz… é o pensamento de que se é à borla é porque não deve ser grande coisa… espero que mude esta mentalidade…
Existe ainda um outro senão, nas bandas de metal nacional…a imagem descuidada em cima do palco. Se repararmos todas as bandas de metal mais mediáticas, tem uma imagem forte em cima do palco. Não interessa o que muitas vezes tocam…interessa terem uma imagem forte, e um som que seja o seguimento da imagem que transmitem… Não basta usar umas TShirts pretas a dizer Sepultura…
acho que as bandas devem preparar-se para estar em cima do palco, pois música já produzem e de boa qualidade.

É o velho ditado de os “Olhos também comem…”…e isto se quiserem chegar aos grandes palcos e grandes festivais da europa e do mundo.

GS: És um dos fundadores da GuitarScream.com, o que pretendes com este novo projecto?

LP: Apenas levar a todos, sem excepção, aquilo que de melhor se faz nas sonoridades mais pesadas da guitarra. E apostar cada vez mais, na divulgação daquilo que é nosso, e feito nas nossas garagens em Portugal… não pretendo mais nada…até porque este site não tem quaisquer interesses financeiros. Apenas serve para satisfazer aquele bichinho pela música em si, em especial o Metal e as sonoridades mais alternativas da guitarra.

GS: A GuitarScream tem entrevistado e divulgado alguns guitarristas nacionais que a maior parte do público português desconhece.  Achas que ainda há muito talento escondido neste pequeno país? No futuro próximo quais são os principais objectivos deste projecto, GuitarScream?

LP: Há realmente muito talento em Portugal. O nosso país tem apenas um pequeno/grande problema…não têm uma politica de cultura, e o português ainda precisa de aprender a respirar cultura. Somos um país em que a cultura é vista num terceiro plano. As infraestruturas no país começam a aparecer, tais como Teatros, auditórios, entre outras salas de espectáculos e exposições, no entanto a gestão ainda é feita de maneira muito amadora. Tirando as grandes cidades e capitais de distrito, o vazio é enorme. Existe ainda uma concentração muito grande dos grandes eventos culturais em Lisboa e no Porto, sendo o restante país um deserto total, de eventos de qualidade superior. Resta apoiarmos de forma mais dinâmica e bairrista as associações culturais dos nossos concelhos, que acabam por fazer um trabalho digno, de forma gratuita…

Para concluir acerca do estado dos nossos talentos lusos, basta realçar que todos os alunos que frequentam escolas de artes, estão condenados ao desemprego, ou ao trabalho precário.

Voltando à GS, este é um projeto que vai focar-se naquilo que se faz neste território à beira mar plantado. Não nos podemos esquecer  o que se faz lá fora, mas nunca vulgarizando a informação dada aos nossos seguidores. No entanto queremos trabalhar em prol dos talentos nacionais…não iremos apoiar as bandas e músicos só porque são portugueses…vamos sim ter a politica de apoiar e divulgar quem realmente é bom naquilo que faz… iremos entrevistar bandas, organizações de eventos, programas de rádio, músicos, sempre com o objetivo de trazer à ribalta quem anda neste mundo da guitarra e do metal de forma graciosa e de coração cheio de vontade para fazer coisas magníficas, em nome de um país que tão pouco os apoia. A GS desde  a sua fundação, (Março 2017) tem tido um crescimento inesperado. Neste momento somos lidos, vistos e consultados, diariamente por muitos visitantes, e no espaço de 4 meses já chegámos a 21.885 pessoas, até ao dia de hoje…é muito bom, e realço novamente…inesperado…, devido ao amadorismo do site, ao facto de ser escrito em Português e destinado exclusivamente a todos os que falam a nossa língua. E somos apenas 2 carolas que gostam do que fazem, e fazem-no apenas pela paixão que tem por estes sons mais extremos das guitarras. Fazemos de forma gratuita e sem qualquer interesse financeiro…apenas nos move a paixão.

GS: Para finalizar, achas que a idade prejudica o guitarrista ou é como o vinho do porto, quanto mais velho melhor?

LP: AHAHAHAHAHHA a idade prejudica muitos órgãos dos músicos, incluindo os dedos com que se toca guitarra…mas aprimora a sabedoria e a capacidade de escolha entre o que é bem e mal tocado… passamos por vezes de jogadores medianos, a muito bons treinadores… (risos)

GS: Indica-nos um canal pela qual os nossos seguidores possam conhecer melhor o guitarrista Luís Parracho. (canal youtube, facebook, etc)

LP: Isso querias tu….(gargalhada)

Obrigado Luís por dispensares um pouco do teu tempo precioso para responderes a estas perguntas.

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