GS entrevista GIL NETO

Nasceu em Moçambique, vive em Lisboa e o gosto pela guitarra começou aos 17 anos. A GuitarScream (GS) teve o privilégio de entrevistar mais um talento na guitarra. Chama-se Gil Neto (GN) e trata a guitarra por Tu.

GS: Apresenta-nos um pouco do teu curricullum no que toca à guitarra. como começaste? onde passaste como elemento ou fundador, em termos de bandas.

GN: Antes de mais permitam-me saudar toda a equipa do Guitar Scream e os seus leitores. É uma enorme honra, ser vosso convidado para entrevista, não só porque foi um projecto que me cativou logo de início por todo o profissionalismo e empenho mostrado no vosso trabalho, em termos de cuidado e apresentação, como por também por ser uma plataforma que me permite logo estar “updated” com o mundo da guitarra rock/metal e afins. Os meus parabéns! O meu percurso na guitarra? Começou já tardiamente em relação ao que é habitual, comecei apenas aos 17 anos, mas não de forma séria, influenciado por um grupo de amigos, fans de metal na escola secundária, que nas horas vagas se reuniam à volta de uma guitarra acústica. Houve um dia que me emprestaram uns discos (o Ozzy – Tribute to Randy Rhoads, o Number of the Beast dos Maiden, o Master of Puppets e uma cassete com o 1º de Van Halen… e voilá, aquilo bateu-me com um impacto brutal),marcou de facto uma decisão “irrevogável” como diria o outro, só que irrevogável à acepção da palavra, a ter que pegar na guitarra de forma séria! Até lá, lembro-me de umas posses ao espelho com uma raquete de ténis lá em casa, air guitar esporádicos e pouco mais. A posteriori conheço uns amigos do bairro que se juntavam também à volta de uma acústica e umas litrosas (entre eles o Lamelas dos F.E.V.E.R. , o Ricardo dos Moonspell) e como devem calcular foi brutal o ensinamento que tive de todos eles (o dominar de um palm mutting, os 1ºs riffs, as 1ªas musicas e por aí fora…). `De resto sempre houve muita musica anglo-saxónica  por aqui, bem como discos do famoso boom do rock português (do Peter Frampton Comes Alive, ao Queen live Killers, de uns Jafumega,a uma banda do Casaco, passando pelos Beatles, ao Muddy Watters , enfim uma discografia rock multifacetada, ahahahah!)…daí até à compra da 1ª guitarra eléctrica com promessa de passagem de ano escolar, e a reprodução fidigna dos solos do Santana, …foi um tirinho… e claro todo um sistema sonoro danificado por ligar às escondidas do meu pai , esta ao sistema stereo …à compra do 1º amp etc… Bandas de bairro e de escola, com os inerentes 1ºs concertos em associações, pavilhões, etc…

Nomes com relevância? Afterdeath – existem edições discográficas desses tempos, Rockfeller – uma banda de versões de músicas que ninguém na altura se atrevia a fazer, com um follow up ao vivo brutal, Miro – o meu 1º trabalho como músico de estúdio, numa colaboração em vários temas num álbum de musica ligeira de um cantor macaense, que me levou a viajar à china, numa viagem cheia de atribulações, e claro os Phazer – edições discográficas, musica figurada nas mais diversas aparições (jogos computador, filme, competições desportivas…etc) e também com a divisão de palco, com alguns nomes sobejamente conhecidos no panorama do rock internacional.

GS: Quando começaste a interessar-te pela guitarra?

GN: Tal como já respondi, cerca dos 17 anos. Adorava o desafio de tentar tocar coisas que ouvia, sempre achei fascinante alguém estar executar uma peça musical, uma malha e tentar perceber não só toda a execução técnica daquilo, mas acima de tudo a relação harmónica existente dos acordes, das notas, dos arpejos e o resultado melódico e harmónico que se obtinha. Sempre foi para mim um fascínio, e não me rogava a perguntar se me podiam ensinar isto ou aquilo. Por vezes até era chatinho de tanto perguntar! Acima de tudo era e sou um fan de música. A guitarra é aquele instrumento expressivo de excelência, como poucos há! Tive a sorte de logo no início em que comecei a tocar, ter tido acesso via um amigo (o irmão do teclista de Moonspell), à discografia de muito mas muito e bom metal / rock (por exemplo aquela editora denominada Shrapnel records, com toda a vaga de guitarristas emergentes da altura!), enfim tive mesmo muito acesso a música rock e metal, numa variedade muito abrangente, apartir de uma certa altura, devo dizê-lo!

GS: Quando começaste, o que esperavas vir a conseguir na execução da guitarra?

GN: Esperava sobretudo tentar reproduzir musicas que gostava, riffs que ouvia etc…claro que isto depois foi-se alterando, mas era algo descomprometido, que me dava um gozo bestial, em cada conquista e objectivo que tinha no momento…sei lá por exemplo,podia ser tentar tocar  uma musica do Kill Em All, adorava aqueles riffs, aquelas sequências, aquela atitude, energia, vigor… era de facto realizador. O próprio ambiente de amigos que tocavam, em que cada um tinha uma coisa nova para ensinar ao outro…era desafiante!

GS: És um autodidacta, ou estudaste guitarra em alguma escola?

GN: Considero-me um autodidacta, no entanto houve uma fase em que decidi que se queria aprender mais, teria que procurar quem me ensinasse. Por isso mesmo, tentei estudar guitarra clássica, mas o “approach” que era ali leccionado, foi para mim desolador. Não encontrei de facto as respostas que queria, às perguntas que eu fazia, encontrei apenas um programa de guitarra estático, e apenas privilegiava a execução de peças de um programa de ensino fechado em si próprio, e isso foi algo de muito desolador. A bronca deu-se quando um professor estava- me a ensinar algo à revelia do programa (creio que era uma malha do Zappa), e o tutor e dono da escola, entrou aos gritos pela sala dentro, dizendo que aquilo não fazia parte do programa. Depois tentou-me impingir religião, e eu disse…naaaaa, isto não é para mim. A posteriori vi um anuncio num jornal que falava de uma escola de rock, fui até lá, e foi ali de facto que me surgiu uma escola, que leccionava rock, jazz, algum clássico, teoria, harmonia, e foi assim que comecei então a conseguir responder a todas aquelas perguntas que tinha até então (harmonia / resoluções / cadências / substituições de acordes, ritmo etc.) Isto durou cerca de um ano e meio, porque entretanto a escola fechou (maldito rock!), mas as bases já tinham sido assimiladas, sendo que depois aprofundei por mim, e parti à descoberta daquilo que me interessava. Ainda hoje o faço. Idolos? Já admirei alguns…dependeu da fase em que estava, não creio que tenha idolatrado, `acepção da palavra… ok o Petruchas e o Marty Friedman posso dizer que era uma admiração grande numa determinada fase, mas chamar-lhe-ia uma enorme admiração, agora naturalmente tentava dissecá-los ao máximo…mas devo-te dizer por exemplo houve uma fase, que enquanto a maioria dos meus colegas de guitarra andavam todos com os Satrianis e os Vais, eu sempre deambulei muito por ali e acolá…lembro-me de falar com eles e com os professores dessa escola na altura, e por exemplo quando falava de Dream Theater (Estavam eles aparecer!)ficavam a olhar para mim, com uma certa áurea de estranheza. …Sei lá lembro-me de um senhor um dia me ter emprestado cerca de 50 vinys de rock prog dos anos 70, tinha eu 20 e poucos anos e aquilo era tudo estranho e quando falava em coisas tipo Gentle Giant, Yes e essas coisas, a malta ficar naquela…o que é que este tipo anda a tomar, ahahahahah…

GS: Quem eram os teus idolos?

GN: Idolos? Não lhes chamarias ídolos…ídolos para mim é algo quase estratosférico…mas já percebi que queres nomes ahahahaha,certo?…no contexto que pode ser mais identificável por aquilo que a generalidade das pessoas conhece de mim, sim um John Petrucci, sim um Marty Friedman, um Zakk Wilde, até um Kirk Hammet porque não, um Van Halen, um Bettencourt, um Vai, um Paul Gilbert, um Satriani e claro um Hetfield, um Mustaine,etc… Mas devo dizer que isto é uma pequena parcela, porque tal como te disse, depende da fase em que me encontro…se andar numa de jazz de fusão por exemplo, a coisa altera radicalmente e outros nomes vêm à baila…

GS: Se pudesses partilhar um palco com outro guitarrista, com quem o farias? E com quem gostarias de trabalhar um dia em estudio, trabalhando e criando temas?

GN: Depende do contexto,… em palco e estúdio? Assim de repente, um nome que encaixaria nesses 2 figurinos…um Hetfield… creio que poderia ser uma coisa interessante, ahahahah… porque não?

GS: Neste momento, é publico que a tua ex-banda phazer se encontra parada. Quais são as tuas perspectivas para o futuro? há novos projetos?

GN: Neste momento, e se calhar da idade (estou a brincar, ahahah!) sinto-me muito bem neste período de recobro, a fazer a minha investigação musical, o meu estudo, etc… na verdade dando mais primazia a coisas que anteriormente tinham sido postas de parte, já que uma banda de originais por vezes consome-te grande parte do tempo que tens disponível para ti próprio na musica. Posso dizer-te que actualmente, por todo um conjunto de circunstâncias que vou- me inteirando diariamente, e do qual não quero tecer juízos, até porque estaria a fugir á questão, devo dizer que ainda não senti aquele beliscão de embarcar num projecto novamente, não minto claro, que já recebi propostas (já pareço um jogador da bola, lol!) …poucas mas boas, mas de facto para partir para o role de “Hired Gun”, terá que ser um projecto com cabeça, tronco e membros, e que não sobreviva só de paixão. Atenção que considero a paixão um “issue” incontornável e não tenho nada contra quem faz isto só de paixão. Nesta vida já percebi que não há decisões “irrevogáveis”, mas por agora, posso dizer que estou de facto bastante feliz por finalmente ter tempo para estudar música de novo, praticar, melhorar determinados aspectos, etc… mas a tua questão de facto, é uma questão que nem eu sei responder para ser muito franco. Uma coisa é certa, a vir à tona será um Gil renovado que virá por aí!

GS: Falando mais especificamente da guitarra, explica-nos o teu rig em cima do palco. Quais as tuas guitarras favoritas e todos os complementos tecnologicos que usas (amps, efeitos, etc).

GN: Eu sou basicamente um gajo muito “plug and play”, para ser honesto contigo. Essencialmente um rig Carvin Legacy de cabeça (100w) e coluna 4×12 Legacy v30 – o modelo do Vai, o 1. Efeitos: a pedaleira Boss GT-100, com um WhaWha Morley Bad Horsie. Claro que tenho outros pedais que por vezes posso querer adicionar, mas é raro…sei lá para gravar por exemplo, gosto de ter um drive da boss o famoso amarelinho SD-1, a dar um “cheirinho” mesmo muito subtil. Mas claro, constam outros pedais aqui por casa, que normalmente não são usados, por uma questão de portabilidade, sei lá um flashback delay da TC Electronics, um Power Stack da Boss, o CH1 chorus da boss, enfim aquele tipo de pedais que ficam sempre bem na colecção de qualquer um. Até um sintetizador de guitarra existe por aqui…o GR-20 da Roland

Guitarras: Bem devo dizer que por aqui a minha preferência vai para a artilharia Japonesa, kkkkkk…!!

– Ibanez RG2550Z Prestige Serie (raio de nomes estes da Ibanez pá!) – é a menina dos meus olhos nos tempos que correm. Foi a minha última aquisição. Versatilidade seria a palavra escolhida para a definir, e claro com os acabamentos de topo actuais da Ibanez, exemplo:  Zero Point System, super wizard neck, etc… ainda não se estreou ao vivo, por isso prognósticos só depois do final do jogo…kkkkkk…

– Ibanez JS- 1000 BTB – uma guitarra com som brutal acomodável a qualquer um. Versatilidade, excelentes acabamentos, muita ergonomia, entonação…e que pedrada, kkkkkkk…

– Ibanez JPM-100 – para muitos um bacalhau icónico, pela sua história, discos que foram gravados e que mudaram o espectro de uma estética sonora. Combinação muito inteligente de humbuckers, braço extremamente confortável, peso muito leve.

– Yaamaha RGZ820R – aquele machine gun com aquele vibe do shredding do final dos 80´s / princípio dos 90´s. Bad Girl por aqui. Furar é a sua missão!!!  Take no prisioners,Kkkkkkk…

– Fernandez Sustainiac FRS-100 – Boa entonação, bons graves e claro aquele sustaniac  ainda com o sistema dependente de 2 pilhas de 9volts, bom braço também…

– Godin Electro-Acoustic l.r. baggs acousticaster Sunburst – som consistente, bom equalizador e boa ergonomia de braço. Safou-me muitos showcases acústicos. ASté tem pastilha a mais para o meu gosto…

– Alhambra 3C (cordas nylon) – guitarra com sonoridade para todos os gostos, flamenco, clássico. Não sendo nenhuma peça Vista Alegre, tirem as vossas conclusões.

https://soundcloud.com/gophazer/phazer-revelations-07-were-all

GS: Achas que ser guitarrista é barato? Tens ideia de quanto um guitarrista precisa de investir para conseguir subir a um palco?

GN: Tudo depende do que queres e onde te inseres. Na experimentação é que reside muita das vezes o problema na minha opinião, onde é muito simples entrares num mundo onde gastar dinheiro é super fácil, mas não dá milhões. No entanto, acho que a nível de guitarras por exemplo, já consegues por preços acessíveis melhor qualidade, do que há uns anos atrás. Tens targets de preços de guitarras mais acessíveis onde já consegues de facto ser muito bem servido. O preço dos pedais de efeitos é que me parece muita das vezes “overpriced”, nos dias que correm, atendendo a tanta opção existente para a mesma coisa… ser caro ou barato ir para um palco, é relativo, depende do que cada um consideras, isto de ser caro ou barato. Eu acho que qualidade normalmente paga-se.

GS: Por falar em guitarra, quem é o teu guitarrista da atualidade, que consideras o mais perfeito, no teu ponto de vista? E porquê?

GN: Neste momento um guitarrista que me chame a atenção? Andy James. Não sei será assim o mais perfeito como perguntas, mas seguramente trás à ribalta algo que por mim estava esquecido para mim, ou seja o “approach” pentatónico num contexto mais “shredico”, também porque tem a agressividade que eu pessoalmente gosto num guitarrista de rock, ou seja aquele ataque de mão direita com precisão no seu alternate picking, e aquele vibrato que mesmo agressivo é preciso e autoritário. Doseia o seu fraseado com variedade de ideias, por vezes até bastante simples, sem caír no aborrecimento de fraseado repetitivo. Just my opinion!

GS: E do panorama nacional, quem são os guitarristas que te marcaram e continuam a marcar? Achas que temos bom executantes?

GN: Definitivamente temos muitos e bons executantes. Não vou é porventura, dissociar aqui a relação entre tocar bem (com os predicados todos em termos técnicos, etc) e o escrever / compor bem e de forma interessante. Nem sempre as duas estão tão bem em conformidade. Execução só pela execução para mim não chega… para isso é só chegar ao Youtube e ver putos japoneses a tocar, peças de guitarra com elevado nível de complexidade técnica, se for preciso com guitarras de 2 braços e a fazer o pino se também for preciso. E se calhar é por aqui aqui que a coisa podia estar um pouquinho mais equilibrada. Just my opinion…tantas vezes que oiço guitarristas menos proeminentes tecnicamente, e com coisas muito mais interessantes para dizer, do que outros que apenas pela técnica não me dizem tanto…Nomes? Seguramente gostaria de os enunciar a todos, mas é tarefa impossível referi-los todos por aqui, por isso as minhas desculpas a esses (vocês são tantos pá!)…assim de repente?… Olha os meus ex-professores por exemplo… Rui Fingers, Luís Fernando, Gonçalo Pereira, e claro outros tantos que oiço ali e acolá…os que oiço de momento?… sei lá, actualmente de um Pedro Jóia, a um Tó Trips (por acaso estava à pouco ouvir aquele tema… o Esmoriz), a um Paulo “Mike” Rodrigues (abraço enorme bro!), ao meu vizinho Ricardo Amorim, a estas novas bandas emergentes, algumas mais faladas que outras, como são o caso dos Left Sun ou dos Sinistro por exemplo… entre tantos e tantos outros… acima de tudo ando numa fase em que gosto de ouvir mais que execução, bons temas, boas canções, com pertinência, bom gosto, arranjos que servem a música, eventualmente atitude, se possível com perspicácia… até posso não gostar da estética ali, porque o meu gosto não me puxa para aquele tipo de sonoridade, mas acredita que sendo um bom tema, essa banda ou esse musico terá sempre o meu reconhecimento, e nem precisa de ter muita originalidade, mas se reciclar a receita é sempre um add-on.

GS: Quais são os teus objectivos na guitarra? Onde queres chegar? Compor, lançares-te como instrumentista (ex. satriani, steve vai, etc), ou como compositor?

GN: Acima de tudo eu gosto de aprender aquilo que gosto de ouvir. E gosto de ouvir muita coisa mesmo, algumas dessas coisas são instrumentais, ou pelo menos com boa relevância instrumental por isso…, posso por exemplo dizer que Phazer ao longo do seu tempo teve cerca de 4 temas instrumentais na sua discografia, e que até em alguns deles sou só eu a tocar individualmente ex: https://phazer.bandcamp.com/track/and-then-it-all-began apesar de achar que pouca gente o sabe. Acima de tudo não me gosto de limitar ou ficar confinado a receitas musicais. Muitas das vezes tento mesmo saír da minha zona de conforto. Indo á tua questão, composição é para mim onde provavelmente mais me realizo pessoalmente. Na improvisação também, devo dize-lo. No entanto, já trabalhei para outras pessoas e fiz alguns trabalhos de estúdio, …sei lá falávamos à pouco de Sinistro por exemplo, lembro-me que lhes fiz um solo em estúdio para um disco deles – https://projectosinistro.bandcamp.com/track/cidade-parte-2 , lembro-me de ter feito muita coisa num disco de um conhecido musico de Macau, na altura tive que ir gravar a Cantão na China, com um produtor que não sabia uma única palavra de Inglês – https://cronicasmacaenses.com/2014/01/19/miro-canta-macau-conta-contigo/ , Zen8Soul por exemplo também tem lá muita coisa minha e instrumental – https://www.youtube.com/watch?v=3SRAMbCX-Dc etc…irei para onde o caminho seguir, sem premeditar ou fazer grandes planos…vamos ver… para já este período de recobro está me a fazer bem, muito bem mesmo. Eu próprio não te sei responder a essa questão, o cenário em volta, para ser franco na música em geral (Rock/metal)no nosso país, é francamente desolador e não são poucas as vezes que oiço tantas dores de quem neste momento está mais exposto em cena … Only time will tell…

GS: Achas a guitarra eletrica um instrumento com futuro, perante a realidade atual e a rapida difusão da musica cada vez mais eletronica?

GN: Creio que a própria evolução da guitarra ao longo da sua história responde-te a essa questão. Verdade sim que o desenvolvimento tecnológico, trouxe à ribalta outras estéticas sonoras, como aliás já tinha acontecido anteriormente (quem não se lembra do Giorgio Moroder há uns bons anos atrás), no entanto face á característica do instrumento em si (para mim o instrumento de maior expressividade alguma vez feito), terá sempre evolução em si próprio adequando-se aos tempos, porventura a sua aplicação poderá ter mais ou menos destaque consoante a estética em causa parece-me. Mas sim haverá sempre uma guitarra na música! Besides it looks cool…and you can always make a mess,right?!!!

GS: Perante aquilo que ouves em festivais nacionais e interncionais de todos os generos, qual é a grande critica que fazes à música atual? (seja pop, rock, eletronica ou outras).

GN: A música sendo uma forma de cultura empírica, não física e tendo na sua evolução nos últimos anos, adquirido maior portabilidade, nos seus dispositivos de armazenagem, onde o seu acesso é mais fácil e imediato, consequentemente  a disponibilização do numero de conteúdos musicais é maior, acabou a meu ver, por levar a própria a sofrer uma “desvalorização”, pois aonde anteriormente o acesso a ela, tinha consequentemente uma relação de custo para o consumidor, ou seja de valorização do produto em si, hoje o facto desta se encontrar facilmente à disposição de meia dúzia cliques, torna-a algo banal, de pouca valorização, pois não é algo que para o consumidor, tenha que ter uma relação de custo, pois há outros tantos conteúdos musicais que não têm essa taxa de esforço, por outro lado e falando agora “artisticamente” se posso assim dizer, a relação com o actual objecto de armazenagem é distinto do passado – (cd, disco, cassete) e na maior parte das vezes não permite ao ouvinte jovem estabelecer uma ligação “emocional” com a obra do artista como no passado,  ao conceito estético da obra em si, isto porque um grafismo, um conteúdo lírico, um conceito visual de suporte á obra, nem sempre está presente na audição,… agora soma-lhe o facto de na maior parte das vezes durante essa audição,ser em frente a um monitor, com todo o apelo à escuta de tantos artistas, as playlists, os anúncios, os chats de redes sociais, as compra on-line, e todas as distracções inerentes aquando estás a frente de um monitor, etc, etc, não permitem de facto, a uma predisposição do ouvinte  (genericamente falando) em poder dedicar atenção exclusiva a uma obra que se encontra ali à disposição, que por vezes requer algum foco, face a todas as “distracções” aos seus sentidos. Li um estudo, e a julgar por este, que indica que a maior parte dos ouvintes não ouve um disco na sua totalidade, ele está lá para ser ouvido, mas raramente obtém a sua respectiva audição na íntegra, ou pelo menos com a atenção devida. A ser assim e indo direto à tua questão, a música é muitas vezes tratada como sendo algo de prazer acessório, enquanto ao mesmo tempo fazes uma data de coisas. Parar para ouvir um disco, como vês um filme por exemplo, é algo que na correria dos dias de hoje, nem toda as pessoas tem esse previlégio…  A ligação emocional a um disco é de facto, mais difícil para um miúdo nos dias que corre, claro está, isto tem repercussões ao nível dos grandes festivais, onde sendo a música o elo apelativo à compra de um bilhete…permite também o acesso a um recinto cheio de imensas distracções, onde haverá musica seguramente, mas também outras atracções em simultâneo, …ou seja, all about entertainment, como uma feira. Claro que os nomes mais mediáticos acabam por ter a grande fatia do bolo de oportunidades, sendo que às vezes o espaço que é facultado às bandas nacionais nos grandes festivais, é relevado para um plano menos mediático e não são poucas as vezes que acabas por não entender, o porquê de algumas estéticas musicais não estarem ali representadas de igual forma, com outras que também não se revestem de grande mediatismo … Mais exemplos podem ser dados, sobre o verdadeiro estado da música, nomeadamente no rock e afins…mas creio ser esta radiografia dos festivais mais mediáticos no país.

GS: Que tipo de som te vai normalmente na alma? O que ouves em casa e no carro, e o que por vezes te apetece tocar?

GN: Que tipo de som me vai na alma? Um som acima de tudo com atitude, convicção e sobretudo com engenho. As minhas audições é conforme o “mood” do dia! O que ando ouvir? No carro por exemplo roda estes dias o Southern Steel do Steve Morse, um álbum de Control Denied, um álbum dos F.E.V.E.R., um álbum dos The Meeters, enfim…em casa esta semana, estive a ouvir Plini, Animal as Leaders, etc… por vezes o que oiço, é para conhecer novos sons, novas bandas e tentar perceber o que se anda a fazer. O que me apetece tocar,perguntas tu?…tenho andado estes últimos dias a dissecar uma peça que aparece num filme, mas que não vou adiantar o que é, kkkkkkkk…

GS: Gostas de fado, e da guitarra fado?

GN: Oiço fado na boa, mas não posso dizer que seja uma estética que eu morra de amores…é um género que tem tido alguma evolução, para gaudio de uns e tristeza de outros, mas o que é certo é que esta nova colagem a outras estéticas (ethnic world music, por exemplo) tem levado o fado a outros públicos, que normalmente não estariam tão receptivos ao fado considerado tradicional.

GS: Pergunta para terminar, achas que a idade prejudica o guitarrista? ou aprimora algum aspecto?

GN: A idade neste caso pode ser como um catalisador de toda a informação adquirida ao longo do tempo, acho que a por vezes o que acontece com a idade, como de resto nos mais variados aspectos da vida, e é intrínseco à natureza humana creio, é a acomodação às zonas de conforto, isto também porque há medida que vais evoluindo esta mesma evolução é cada vez mais lenta e difícil, pois vais subindo a barra a níveis que requerem de facto um trabalho mais árduo, para poderes continuar evoluir, naturalmente todas as solicitações e responsabilidades que vais tendo na vida, vão dificultar não só no tempo disponível, como também no foco que é necessário, o que convenha-se dizer nem sempre é tarefa fácil. Por vezes, também há aquela situação de com a idade te focares apenas nos teus pontos fortes, e começares a deixar de lado os outros que não se prefiguram tão fortes assim.

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Obrigado Gil por dispensares um pouco do teu tempo precioso para responderes a estas perguntas.

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